Belinho é um senhor alto e corpulento. Engraçado esse apelido - não que não fosse belo - a graça está no diminutivo do mesmo. Um homenzarrão daquele sendo chamado de Belinho! Também atende por "Vovô", "Seu Nogueira" e "Meu Pai".
É um senhor excêntrico. Mesmo quando era novo, já tinha mania de velho. Não abre mão da cachaça, nem da pimenta (arrancava-as do pé e as comia inteirinhas, com muito gosto). Refeição tem que ter farinha de mandioca e carne. Carne é comida de verdade.
O Vasco da Gama é uma grande paixão. Quando o time perdia, batia no cachorro pra descontar a raiva. Hoje ele não faz mais isso não. Mas quando ganha, coloca o hino na vitrola pra vizinhança toda ouvir.
Não gostava de choro de criança, nem mesmo as da famíla. Gostava era de criança quieta, brincando. Construiu um balanço de madeira, no ingazeiro da rua. Para suas netas - Donda, Carola, Lulu, Dadai, Maninha - e para qualquer outra menina. Menino nenhum podia usar o brinquedo, só os da família. "Não quero esses moleques vagabundos na minha porta", dizia.
Estava sempre na garagem de casa batendo prego, serrando, colando, remendando algo... Vivia construindo compartimentos pra guardar coisas, mesmo quando não havia o que guardar. Construía também brinquedos, tabuleiros de dama e dominó. Reaproveitava eletrodomésticos. No Natal fazia uma estrela de pisca-pisca e pendurava no ingazeiro.
Sempre penso nele quando ouço o "O Globo no Ar". Também penso nele quando lembro que oito vezes oito é sessenta e quatro, foi ele que me disse quando eu ainda não sabia a tabuada de cor. Também não esqueço de quando, após ouvir um CD do Julio Iglesias, ele pediu que eu colocasse o lado B pra tocar, achando que era a mesma coisa que um LP. Me fez rir e não ficou bravo com meu gracejo.
Vovô passa a maior parte do tempo na cama agora, e eu quase não vou lá, não tenho coragem... De vez em quando dá uns passinhos tímidos pela casa... sinto alívio ao ver que ele não desiste. Mas a angústia permanece, eu sei que ele tá indo pra algum lugar... após 92 anos...
E não tem essa de ver o lado bom das coisas, não... ele vai descansar? E quem disse que ele tava cansado? Hoje mesmo ele decidiu consertar um guarda chuva velho... eu fiquei lá com ele, lixando e desamassando arame. Depois a gente costurou tudo e num passe de mágica, o guarda-chuva ficou novinho de novo.
Algo veio e levou sua saúde sem piedade. Dizem o tempo, o relógio biológico, o destino, deus... eu não quero saber, e acho que ele também não...
Será que é muita pretensão querer tudo aquilo de volta?
quarta-feira, 29 de julho de 2009
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