quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Alto-mar"

De repente, ela começou a ver tudo colorido e pulsante. Navegou, navegou extasiada até a linha do horizonte. Foi às nuvens para atingir o zênite. Voltou, querendo aquilo pra sempre. Estava disposta a dar o primeiro passo, e deu. Sabia o significado de tudo, e temia.

Chorou, ele. E como. Foi capaz de passar horas a fio, sentado no meio-fio com ela ao lado, de pé e com os braços cruzados. Tudo doía. Doía a esperança de que o passar das horas tratasse de demovê-la. Doía aquele dia bonito que ia dando lugar à noite, devargazinho, como se tivesse chegando pra compor um novo cenário, que, quem sabe viria acompanhado de um novo ato, daquele ato. Ato que não veio.

Voltou pra casa seco, e para sua própria supresa, aliviado. Há muito só navegava sozinho. Nada que se comparasse a horizontes e zênites - ele se satisfazia com tão pouco! Nunca ousou ir muito longe... Até então só havia se apaixonado por músicas, por idéias, por manias, por novidades, e recentemente, pela embriaguez.

Estava decidido a dar o seu primeiro passo. O outro fora dado por ela, não por ele, não lhe valia de nada.
Enfrentou todas as manhãs. Essas, nunca passavam despercebidas, estavam sempre a desafiá-lo. Ingênuas. Mal sabiam que só estavam contribuindo para sua longa viagem.

Um dia, deu por si, em alto-mar. Navegando de peito aberto, à espera da tempestade, ao encontro dos limiares. Nada faltava, muito sobrava, tudo transboradava e aquilo era bom. Tudo estava colorido e pulsante. Sabia o significado de tudo. E não temia.

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