quinta-feira, 12 de março de 2009

Cartas de Valdilúnia e Tom

Para Tom:

Tom, eu quero que você saiba que vou sentir muita saudade. De vez em quando vou pedir às meninas pra você passar uns dias comigo na minha casa nova.
Desculpa por toda hora te agarrar e enfiar a cara na sua barriga. Por te fazer cócegas. Por ameaçar assar suas coxas com batata. Por te chamar de Porcaria. Por ter preguiça de trocar sua água. (isso é imperdoável, eu sei). Por falar com você fazendo aquela vozinha idiota. Não consigo falar com você de outro jeito. Desculpa pelos flashes também. Pelos chutes que te dei no escuro. Pelos sustos que Pontes te dava de propósito, só pra te ver dando aqueles saltos... ele fazia isso comigo também...
Por mim você seria muito mais livre, mas eu não pude fazer nada. No dia que você sumiu, fiquei muito preocupada. eu tive vontade de te dar uns tapas, Tom.
Eu gosto muito de te observar, e acho que sei mais de você do que você mesmo. Faria qualquer coisa para que nossa comunicação fosse mais clara, pois temos muito a trocar.
Você tem que ser menos medroso, Porcaria. Os poucos momentos de liberdade que teve, que era quando ia lá pra vila, você ficava escondido embaixo dos carros! Espero que aproveite mais a casa na nova, que caçe bastante passarinho, borboleta e barata. Todo mundo gosta muito de você, viu? Se a Ísis for morar na minha casa nova, você vai ganhar uma amiga. Ele é mó gatinha, com o perdão do trocadilho. Só que ela é muito brava, você vai ter que ser paciente com ela.
Ah! Eu nunca entendi direito o que você queria dizer quando olhava pra mim fixamente e piscava apenas um olho, bem devagarzinho. Às vezes você piscava os dois. Tenho duas teorias: você estava me desprezando ou você estava me seduzindo. Gostaria de saber.
A gente se fala. Um beijo.


Para Valdilúnia:

Pra ser sincero, não vou sentir muito a sua falta não. Mas gostei da idéia de passar uns dias na sua casa, quero conhecer a Ísis. O único gato que me relacionei profundamente foi meu irmão. Até tenho uns amigos na vila, mas quase sempre prefiro ficar escondido lá em baixo do carro. Não confio neles. Eu sou medroso mesmo, mas vez em quando me encho de coragem. Espero me dar bem com ela.
Aceito seus pedidos de desculpas, mas quero te lembrar que você esqueceu de desculpar-se pelos puxões que deu no meu bigode e pelas bifas que deu na minha orelha. E também por espirrar água e espuma em mim. Quando você ia lavar louça eu tinha que me esconder. Mas tudo bem. Eu até gostava quando você me pegava no colo e fazia uns carinhos, só achava incômodo quando você começava a me esmagar.
É estranho não ter meu irmão por perto. A gente não tava se dando muito bem antes dele morrer. Fiquei muito sentido quando me culparam pela doença que ele teve. Mas depois de sua morte, virei centro das atenções. Vocês, humanos...
Quero agradecer pela liberdade que sempre desejou pra mim. Mas eu não sou da Magnólia, nem da Voh, nem seu. Você é de alguém por acaso? Existe alguém que decide a sua vida todos os dias? Que decide o que vai comer? Se merece dar um passeio ou não? Se coloca no meu lugar, não sou um brinquedinho engraçado, sou ser vivo, assim como você.
Sobre você saber mais de mim do que eu mesmo, falou besteira. Vocês não sabem nada nem sobre vocês mesmos. Eu fico rindo por dentro quando vocês ficam especulando sobre o que estou sentindo, é realmente engraçado.
Vai procurar na literatura o que os cientistas dizem sobre meu olhar e sobre meu comportamento. As coisas que você inventa tem muitos sentidos e no fundo, no fundo, não tem nenhum. É proposital, eu sei. Então vou fazer a mesma coisa, vou te deixar na dúvida.
Pode deixar que vou aproveitar bastante a casa nova, só não sei se vai dar pra caçar. Mas acho que vai ser melhor, pois desde que vocês vieram morar aqui, eu não tive mais paz. Obrigada pelo cuidado e por gostar de mim. Eu até gosto de você, mas você não é especial. Ficarei bem com as meninas.


Para Tom:

Nossa, Tom, você foi tão ranzinza na sua carta. Tá parecendo um gato mal-amado e isso com certeza você não é.
Nada foi por mal, eu só queria brincar com você. Mas agora percebo que nem todas as vezes que você chegou ronronando, esticando o pescoço e empinando a bunda era porque queria brincar. A gente teve pouco tempo pra se entender, né?
A liberdade que desejo pra você é sincera. E a resposta para a maioria das perguntas que fez é “sim”. Eu não sou de ninguém, mas existe sim, alguém decidindo a minha vida em algum lugar. E o plano deles é muito mais cruel, Tom. Você tem sorte de ser gato. Não estou justificando a sua prisão, mas com certeza você é mais livre do que eu.
Sobre minhas invenções, você é quem falou besteira agora. Nem todas nascem sem sentido. Algumas sim, e depois ganham muitos significados e os perdem também. Enfim, é mudança constante. E nada disso é proposital. Mas já que prefere fazer mistério sobre seu comportamento, eu vou continuar teorizando sobre você.
O que acontece é que gosto de refletir sobre o quanto somos iguais e o quanto somos diferentes. Eu fico olhando você fazendo as mesmas coisas que eu... comendo, se coçando, bocejando, dormindo... é tão intrigante! Você não é gente! Eu estou sempre imaginando as milhares de semelhanças que a gente tem e nem sabe!
Em relação à Babão, nunca te culpei pela doença dele. Eu só ficava tentando buscar respostas com as meninas para o que aconteceu. Na verdade, nunca achei que uma briguinha pudesse causar aquilo, e acho que elas também não...
Hoje, Voh disse que é como se ele nunca tivesse existido... é assim mesmo, Tom. Com, o tempo a gente escolhe não sofrer... já morei com um gato, Critério, que me ensinou muita coisa, assim como você. Hoje ele mora bem longe, num lugar melhor do que aqui. Eu sinto muita falta dele. Não é como se ele nunca tivesse existido, mas a falta que ele faz ganhou outro significado. Pra ele foi muito melhor. Eu também o chamava de Porcaria, e ele era porcaria de verdade. Adorava uma sujeira. Dormia na pá do lixo...
Mudando de assunto, saiba que está fazendo um sucesso danado. Mostrei suas fotos p'ras pessoas e todo mundo achou você lindo. Quero fazer um novo ensaio na sua casa nova. Se você se der bem com a Ísis, posso fotografar vocês dois. Mas fica tranqüilo que não vou retratar nenhuma intimidade.
Um beijo, Porcaria. Saiba que todo meu interesse por você é justamente por não saber direito que nos une e o que nos separa. Pode ter certeza de que tivesse como me relacionar com um protozoário ou uma bactéria, seria a mesma coisa. Mas é que nós temos um laço. E também porque consigo compreender melhor os teus sinais.


Para Valdilúnia:

É, meu humor não tava dos melhores quando lhe enviei aquela carta. Me tornei um gato ranzinza mesmo, devo sofrer de velhice precoce...
Conversar sobre liberdade é muito complicado. Ser livre pra mim é uma coisa, pra você é outra. Você não pode dizer que sou mais livre que você. Vocês decidem o que vou comer, que horas e quando! Ok, você disse que no seu mundo é a mesma coisa. Mas ainda assim você tem muito mais controle sobre a sua vida. Se sentir fome, vai pegar sua chave, abrir a porta e ir pra rua procurar comida. Eu não. Eu estou aprisionado dentro do jogo de vocês!
Ser livre envolve muitos riscos e rupturas, é preciso ter coragem. Você também não tem, então devia parar de me chamar de medroso. Espero que um dia haja harmonia. Que o especismo seja visto como uma coisa tão horrível como o racismo, machismo e todos esses “ismos” aí que vocês inventaram.
Entendo seu interesse sobre nossas semelhanças... também tenho essa curiosidade... não posso ver nada se mexendo... fico intrigado ao ver outros animais... todos os seres vivos se coçam, bebem, bocejam, dormem... de alguma maneira...também não sei o que nos une e o que nos separa, e ter essa resposta significaria ter um mundo justo.
Eu não quero mais falar sobre Bacão. Se as meninas já não sentem mais falta dele, também não devem mais me responsabilizar por sua doença. Então, tá resolvido. Mais tarde, ele vai virar estrela de cinema, e vai ser tudo lindo.
Não esqueça de me contar o que o tal do Critério te ensinou, mas por favor sem comparações.
Me mudo hoje... espero você e a Ísis... um beijo.

1 comentários:

Paula Baco disse...

Valda e Tom, nunca soube o quanto vcs se entendiam. Essa piscada de um olho só entre outras coisas eram sinais que o Baco emitia para mim. Nunca vou esquecer do Baco, ao contrario do que muitos pensam, ele tava perto o tempo todo, ele `falava´ comigo, e me entendia como ninguém. Ele era sim, um grande amigo. Muitas vezes eu ouvi ele me dizer coisas. Com certeza nem Tom nem Baco jamais foram meus, cada um têm o seu jeito de curtir os humanos. O Tom agora é um gato livre, só vem em casa pra se alimentar, dormir ou tentar ganhar um carinho. Ele tá lindo demais assim, e merece tudo isso. Tenho certeza que ele gostaria que vc tbm morasse aqui.
Valeu!